A música na escola


A música presente nas escolas é ainda transformadora quando ensina com método. (Foto: Celia Santos)


A Música é parte integrante do cotidiano das pessoas. Escutamos música em casa, na rua, no cinema, no carro e em muitos outros lugares. As pessoas têm acesso a diversos gêneros e estilos musicais ao longo de sua vida. E como a Escola faz parte da vida das pessoas, é fundamental que ofereça aos educandos a possibilidade de conhecer e experimentar a maior variedade possível de possibilidades musicais.

Certamente muitos dos que agora leem este texto, perguntam: Mas como é possível isso acontecer se em grande parte de nossas escolas não existe Professor de Música?

Como Licenciada em Música e professora da Escola Regular por mais de 30 anos, sei da importância da presença de um professor de Música nas escolas, pois os conteúdos específicos da área contribuem de maneira inequívoca para a Formação Integral das crianças e jovens. Mas também sei que é praticamente impossível que o número de professores formados no Brasil preencha as vagas necessárias de todas as escolas do país.


As artes como método educacional é uma das bandeiras do projeto Caravana das Artes. (Foto: Celia Santos)


Então, respondendo a essa quase óbvia indagação, lanço outra pergunta: Será que só caberia ao professor de Música a “tarefa” ou “responsabilidade” de “ensinar” ou “fazer” Música com seus alunos?   Claro que não!

O artigo 26 da LDB (Leis das Diretrizes e Bases da Educação nº 9394/96 – de 20 de dezembro de 1996) que o currículo escolar do ensino básico brasileiro leve em consideração características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. Para tanto, o ensino de expressões artísticas regionais constitui um componente curricular obrigatório em todas as etapas, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos.

Dentro dessa perspectiva a Música se coloca como elemento importante para a formação das crianças e jovens, mesmo quando não existem profissionais da área nas escolas. Porque cantar, dançar, brincar, festejar, faz parte da vida de qualquer ser humano.  Assim, qualquer professor pode e deve se utilizar da Música como complemento, motivação ou conteúdo transversal para sua disciplina.

Professores de creches e da Educação Infantil fazem isso com frequência. Cantam e brincam com as crianças quase todo o tempo. As cantigas de roda, brincadeiras cantadas e parlendas (versinhos com temática infantil que são recitados em brincadeiras. Possuem rima fácil e por isso são populares entre as crianças. Elas representam uma importante tradição cultural do nosso povo) são fundamentais para o desenvolvimento psicomotor das crianças nesta fase, em que sempre sentam em roda e fazem tudo juntos.

Mas quando passam para o Ensino Fundamental quase sempre essas atividades são deixadas para trás, pois existe um consenso de que é a hora de aprender “coisas sérias”. E assim, as crianças são apresentadas às disciplinas (fragmentando seu conhecimento), e passam a sentar em filas, restritas às suas carteiras,  que na maioria das vezes são quase “prisões”, e, aos poucos, vão deixando de cantar, dançar, brincar… Como se isso não fosse mais importante. Como se eles pudessem ser reduzidos a apenas seres pensadores e como se seus corpos não fizessem parte deles! Como se apenas nas “aulas extras” (Música, Dança, Teatro, Esportes…)  pudessem se divertir e se mexer.  E se na sua escola não existirem essas aulas? Como eles ficarão?

Para que a aprendizagem aconteça de maneira significativa é necessário que ela envolva os três Domínios: 1. Psicomotor; 2. Afetivo; 3. Cognitivo. A Música, com seus elementos e propriedades,  envolve os três domínios da Aprendizagem, e então, só pela sua presença na escola, contribui de forma significativa para o desenvolvimento de nossas crianças e jovens.

Alguns professores comentam que não sabem cantar, não dançam, não tocam instrumento e não teem jeito para isso. Ledo engano! Todo mundo pode cantar, até os deficientes auditivos e mudos, que cantam “com as mãos”. Todo mundo, de algum jeito,  pode mexer o corpo, mesmo quem tem limitações físicas. Então, é só começar.

Mas, por onde começar? Pelo que está mais perto da gente! Toda cidade tem sua história, seus personagens, sua música. Por que não começar por aí?

Parafraseando Leon Tolstói (escritor russo, autor do romance Guerra e Paz, clássico da  Literatura Universal,  é o autor da frase “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia). “Quando cantamos nossa aldeia, nos tornamos universais”.

Valorizar a cultura local nas diversas disciplinas da educação básica é dar sentido à aprendizagem, pois a criança e o jovem que vai à escola sem grande expectativa, quando se depara com a sua própria cultura, que muitas vezes desconhecia, tem grande possibilidade  de ver sentido no que aprende. Numa aula de História, ou Geografia, Português ou Literatura, ou num projeto que agregue qualquer disciplina, se o assunto ou tema for, por exemplo, algo que envolva sua cidade ou seu estado, por que não aproveitar uma canção tradicional e trabalhar com os alunos, do jeito que for possível? Só cantando, cantando e dançando, tocando instrumentos feitos com sucata (como chocalhos e reco-recos, que são os mais simples de fazer), criando bonecos e indumentárias de papel ou com tecidos reutilizados, desenhando,  pintando ou fazendo colagens com o tema da música para servir como  quadro ou estandarte? Depois, o resultado desse trabalho pode ser apresentado numa festa da escola, ou simplesmente mostrado às turmas vizinhas ou aos familiares dos alunos. Se você não conhece nenhuma música, com certeza algum colega ou familiar de algum aluno conhece. Até algum vizinho seu pode conhecer. Só o que precisa é TER VONTADE de fazer e correr atrás.


A Ciranda, manifestação característica na região de Conceição da Barra, no Espirito Santo, se junta à escola e colabora para a educação, valorizando a regionalidade. (Foto: Celia Santos)


Em algumas cidades visitadas pela Caravana das Artes encontramos professores que comentam sobre o fim de alguma tradição do lugar. Quando perguntados qual a razão, normalmente é porque o poder público não apoia, mas, quase sempre, o principal motivo é que seus integrantes envelheceram e não surgiram novos brincantes. Então eu pergunto: Por que não ensinar essa tradição para suas crianças? Por que não convidar alguém desse grupo para fazer isso? Se contextualizarmos nossas ações, a possibilidade dessa tradição se renovar é grande.  Um exemplo disso é a cidade de Conceição da Barra – ES, que foi visitada pela Caravana no ano de 2014. Lá, a Prefeitura da época contratou dois Mestres do “Ticumbi”, folguedo tradicional local, para trabalhar nas escolas da cidade. Nesse folguedo tradicionalmente só participavam homens. Nas escolas, meninos e meninas aprenderam as danças, as músicas, a tocar os instrumentos e o resultado disso foi uma revitalização e renovação dessa tradição.

Em Manacapuru, no Pará, visitada em 2010, a história foi diferente. Lá conhecemos uma manifestação cultural chamada “Ciranda”. Como nordestina que sou, imaginei as rodas de cirandas como em Pernambuco. Mas lá, as Cirandas são bem diferentes. Essa manifestação cultural da cidade começou numa escola, quando um professor, no início da década de 1980, tentou ensinar, sem sucesso, algumas “danças folclóricas” aos seus alunos,  até que obteve bons resultados com a “Dança da Ciranda”. Rapidamente outras escolas passaram a fazer Cirandas também e os alunos começaram a agregar características locais, acelerando o andamento e incluindo coreografias, indumentárias e alegorias. Cada Ciranda ganhou um nome e após alguns anos elas se profissionalizaram. Atualmente o “Festival de Cirandas de Manacapuru” é o segundo maior evento cultural da Região Amazônica.


A Caravana realizada em Manacapuru foi marcada pela presença de manifestações culturais.


Em cada cidade que visitamos conhecemos danças, cantigas, brincadeiras bem características. E em muitas delas, os professores não as transmitem para seus alunos, ou porque não as conhecem, ou  porque não sabem por onde começar.

ENTÃO, FICA O CONVITE!

APROVEITE A HISTÓRIA DE SUA CIDADE, A SUA HISTÓRIA, PESQUISE E TRAGA A MÚSICA PARA DENTRO DE SUA ESCOLA!

Vá para o pátio, para a quadra, ou encoste as carteiras da sua sala e…. Cante e dance a música da Bicharada ou de um Bloco de Bichos, a Canção do “Tatu-Bola”,  do Bloco de Fados, dos Bonecos Gigantes, do Terno de Reis,  as Cantigas de Roda e Brincadeiras Cantadas, as Parlendas,  a(s) Ciranda(s), o Frevo, o Samba,  Samba de Roda e Samba Chula, o Jongo, o Congo, a Congada, o Baião, o Ticumbi, o Bumba meu Boi ou Boi Bumbá, a Catira, a Burrinha e o Cavalo Marinho, a Quadrilha, o Samba Reggae, o Funk, o Passinho, a Taieira, o Coco e o Maracatu, a Sússia, o Forró, o Fandango, a Guarânia,  o Rap e o Hip-Hop, aproveite os Ditados Populares e Provérbios, as músicas de autores populares brasileiros como Caymmi, Gonzaga,  e tantos outros, as músicas de novos compositores, de compositores de sua cidade, músicas de nossas matrizes Indígena, Africana e Ibérica,  músicas de outros países, músicas inventadas por seus alunos, músicas inventadas por você!

TRAGA VIDA PARA A SUA ESCOLA!!

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Heloisa Leone é Educadora Musical Professora do Instituto Mpumalanga Especialista no Método Willems de Educação Musical

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