A nova visão sobre a questão indígena em uma sala de aula


Questionar é um passo para o aprendizado. Não faltaram questionamentos na visita do Instituto Mpumalanga a uma escola particular.


O cumprimento em uma língua desconhecida já dava indícios de que aquela aula com com visitantes inusitados seria diferente para os alunos do quarto ano da escola Carandá VivaVida, uma instituição de ensino particular de São Paulo. A saudação na língua Paumari e Apurinã era só o começo de uma conversa que trataria da questão indígena desde o ‘descobrimento’ até as demarcações tão problemáticas atualmente.

A participação do Instituto Mpumalanga foi para trazer a experiência com o atendimento de povos indígenas dos projetos Caravana do Esporte e Caravana das Artes, além do Vozes do Purus, cujo trabalho é desenvolvido com moradores da região amazônica. A aula entrou no contexto das discussões “Brasil, quem somos?”, que vêm instigando os alunos do quarto ano sobre questões identitárias e de diversidade.

A figura dos povos indígenas está ultrapassada no senso comum de parte da população, por isso aproximar crianças da realidade atual desses povos ajuda em uma discussão com mais propriedade das questões de direito dos primeiros moradores das terras brasileiras. Também facilita, por exemplo, o entendimento da importância das demarcações, pois não se pode ignorar o ponto de vista cultural indígena.

“Educação é tudo aquilo que nos ajuda a viver melhor”, pontuou Alexandre Arena, conselheiro do Instituto Mpumalanga. A sala Madalena Freire, nome da filha de Paulo Freire e discípula de seus sábios conceitos educacionais, era convidativa para a reflexão. O primeiro paradigma a ser quebrado naquele espaço foi cultural, pois não podemos analisar uma cultura diferente a partir da nossa. Precisamos, portanto, abandonar a ideia de superioridade cultural. Para tanto, o gatilho do professor Alexandre Arena foi o macaco.

O macaco? Sim, o educador não titubeou em dizer que aquele macaquinho na foto que estampava o projetor de slides e que fez as crianças soltarem um “ohh” em exclamação de ternura era, no contexto indígena, alimento. E isso não pode ser visto com nenhum demérito, sobretudo para nós, tão acostumados a escolher o melhor filé nas gondolas congeladas dos supermercados. Abre-se aqui uma nova possibilidade de entendimento para as crianças. Não existe cultura superior.


O macaco abriu a discussão quebrando alguns tabus dentro da sala de aula.


A quebra desse paradigma fez com que os próprios alunos contestassem o ‘descobrimento’, o ano de 1500 e outras visões que ignoram o ponto de vista de quem já habitava o Brasil antes que naus portuguesas alcançassem nosso litoral. Quem sabe a história não comece com “terra à vista” e sim do ponto de vista de quem via embarcações se aproximando.

“É preciso trabalhar a diversidade para nos constituir seres humanos melhores”, ressaltou Adriana Saldanha, diretora do Instituto Mpumalanga, elogiando a iniciativa da escola de trabalhar esses conceitos.

“Aprendi sobre os povos,  o que eles precisam eles tiram da natureza. E que eles não moram em ocas”, resumiu a aluna Laura Guariento, de 9 anos. “Eu sabia que eles faziam rituais e danças, mas não sabia que era tão legal”, completou sobre a nova visão.

Após contar as histórias sobre as expedições na Amazônia e o trabalho com povos indígenas de todo o Brasil, os educadores do Instituto Mpumalanga convidaram as crianças para afastar as cadeiras e se movimentar uma roda de dança aprendida com os indígenas.

“É um campo de conhecimento privilegiado, ensinar de um jeito que valoriza tradições e nos dá oportunidade de troca com as crianças da Carandá Vivavida, em São Paulo. Mostra uma história que sai do livro com requinte de vivência e realidade, além de colocar a questão indígena em pauta”, avaliou Adriana Saldanha.

O Instituto Mpumalanga, junto com os projetos Caravana das Artes e Caravana do Esporte, disponibiliza atenção especial para questões indígenas e soma 24 povos diferentes atendidos pelos projetos ao longo de 12 anos.


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