Aluna da natureza, a indígena Maria Laura apresenta sua fonte de sabedoria

Uma estante de madeira em estilo rústico preenchida com livros e aquilo que aprendemos a chamar de conhecimento. A sabedoria era aquela estante. Procuramos entre as folhas a tal fonte inesgotável. Demoramos a descobrir que ela não estava dividida em capítulos, era sim a própria folha, a capa envelhecida e a madeira por detrás do verniz. A fonte de sabedoria é a natureza. É ela que preenche Dona Maria Laura de Lourdes Apurinã.

Não folheou os livros, mas cresceu entre as folhas verdinhas. Teve bons professores. Uns cantavam a liberdade feito passarinhos, outros, mais conservadores, imóveis, até passaram algumas rasteiras com raízes que saltavam ao solo. Aprendeu com ambos, pois juntos eram seu mundo.

Fora menina arteira, hoje a tratam por Dona ou Senhora, deve ser efeito da serenidade que ganhou com o tempo. Fala mansa de quem acumula uma sabedoria única, de quem criou 15 filhos, sentiu a dor de perder dois deles e uma saudade inconformada pelos três que escolheram a cidade como novo lar. Conforta-a os netos e a família grande, a perder de vista.  “Não sei quantos tem, mas tem”, afirma acentuando a última palavra em referência aos parentes apurinã.

Olhos negros e determinados. Tem a pele queimada pelo Sol e poucos sinais de envelhecimento. Os cabelos grisalhos estão arranjados por trás de um adereço indígena, feito com palha entrelaçada. Ele circunda a testa, se esconde nos cachos prateados e volta a aparecer no pescoço, onde faz às vezes de um colar.


Dona Maria Laura é apurinã e guarda enorme orgulho por morar no Médio Purus, na Floresta Amazônia. (Foto: Celia Santos)


Dona Maria Laura aprendeu entre as árvores e dedica-se a ensinar desde muito jovem. Outrora, os filhos. Agora, os netos. “Tudo eu ensino os meninos lá em casa. Ensino a fazer pandeiro, peneira, um assado, o cará, a macaxeira. Do jeito que eu falo, eles fazem e acham bom fazer”, conta.


Depois de criar 15 filhos, a indígena se dedica a ensinar cultura ancestral aos netos (Foto: Celia Santos)


Os ensinamentos são na língua materna apurinã, pois ela sabe a importância de preservar a cultura de seus ancestrais. “Eu mesmo ensino, sem escola, para preservar nossa cultura. Nós temos valor”, pontua a apurinã, cheia de personalidade e força aos 63 anos.

Assim como a maioria dos indígenas do povo apurinã, ela não foi alfabetizada na língua de seus ancestrais. Esforçou-se pra aprender a língua por uma causa nobre: Alfredo. O futuro marido só sabia falar a língua materna. Hoje, ela traduz as palavras em português para o apurinã sem pestanejar.

“A mãe desse meu velho aqui”, começa, apontando o marido em um gesto carinhoso. “Só falava a língua (materna), então fui aprendendo, senão qual era o jeito?”, questiona. Entreolham-se em expressão cúmplice.

A sabedoria de Dona Maria Laura também está em sua própria história, que ela compartilha em tom de prosa com os mais novos da família. Reconhece as vantagens da passagem do tempo, embora não abra mão das tradições de seu povo. “Nós trabalhamos muito para viver, ter um salzinho, um açúcar. Se não fizesse não tinha. Agora tem ajuda. Está muito melhor. Muitos velhos morreram trabalhando e agora se tem aposentadoria. Eu e meu velho estamos aposentados”.

Dona Maria Laura é mulher forte, mas tem fraqueza para elogios. Quando ressaltamos algumas qualidades, ela esboça um sorriso sorrateiro. Porém, é só falar da família que ela deixa os dentes à mostra. Não esconde o orgulho.

“Criei meus filhos assim mesmo. Criado feito índio mesmo. Não tem que dizer que não é índio. Agora já estou criando netos”, ressalta em voz firme.

Sobre educação, ela é sucinta “é sabedoria”. Essa sabedoria não está necessariamente nos livros, os quais Dona Maria Laura teve pouco contato. Sua estante de conhecimento é a Amazônia, em sua riqueza de saberes e diversidade de aprendizados. Lá, ela registra sua história orgânica.


Vida simples, família e mata são as essenciais da matriarca apurinã. (Foto: Celia Santos)


Vozes do Purus

O Projeto Vozes do Purus abraça as manifestações e tradições culturais dos povos indígenas como parte da Caravana das Artes –  movimento que acredita no poder mobilizador da arte, na possibilidade de aprender e construir juntos, na valorização da cultura, na promoção dos ideais democráticos e da paz. A Caravana das Artes é um projeto itinerante que percorre todos os anos 10 municípios com baixos índices de desenvolvimento humano (IDH) e infantil (IDI), promovendo atividades artísticas entre crianças e jovens, além de capacitação de professores da rede pública. Uma metodologia que transforma a realidade de crianças e jovens em espaço e conteúdo para o aprendizado e, principalmente, valoriza o papel do professor como ator social com grande influência na comunidade.

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