Como anda a arte em São Paulo 95 anos depois da Semana de 22?

Um dos movimentos mais singulares da arte no Brasil, a Semana da Arte Moderna – também conhecida como Semana de 22, em referência ao ano de 1922 – completa 95 anos. Em quase um centenário, muita coisa mudou, mas será que alteramos nossa concepção? Ou continuamos presos aos padrões que os modernistas queriam rachar.

Em entrevista ao Instituto Mpumalanga, a sobrinha-neta e homônimo de Tarsila do Amaral afirma que o novo ainda assusta pela falta de compreensão, a mesma que levou o movimento modernista a ser alvo de severas críticas no Brasil.

“Tudo que é novo assusta. O modernismo assustou; a arte contemporânea também assusta, assim como foi nessa época. As pessoas não gostam do que não compreendem. Quando não tem compreensão acaba assustando e afastando”, explicou Tarsila, que hoje administra o acervo da pintora.


Abapuru (1928) se configurou como um simbolo modernista. É uma das mais famosas telas de Tarsila do Amaral. (Foto: Reprodução)


Tarsila do Amaral não participou da Semana da Arte Moderna, pois estava em Paris, na França. Entretanto, tornou-se um dos ícones do movimento modernista que passou a apoiar mais ativamente no retorno ao país. “Ela era amiga da Anita Malfatti e acaba sabendo do movimento pelas cartas da Anita”, comentou a sobrinha-neta.


Maria de Andrade por Anita Malfatti, ambos integrantes do Movimento Modernista na Semana de 22.


A Semana da Arte Moderna foi um marco cultural brasileiro, que rompeu com padrões artísticos para apresentar novas possibilidades. Nomes como Anita Malfatti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret e Di Cavalcanti figuravam entre os participantes, que conseguiram o requintado palco do Teatro Municipal de São Paulo para dar voz à mudança. As apresentações, no entanto, não foram muito bem recebidas pelo público em um primeiro momento. Um dos críticos que atacava a arte modernista era Monteiro Lobato.

A discussão sobre o que é arte é antiga, pois insistem em classificá-la. Entender a arte como um conceito variado – o que é arte para mim, pode não ser para você – é o caminho para o consenso, mas a arte contemporânea sofre o mesmo problema da modernista: o velho julgamento do que é arte.

A principal discussão em torno de arte que domina os dias da capital da paulista atualmente não está restrita aos frequentadores do Teatro Municipal, como em 1922. O tema grafitti gera opiniões controvérsias e se espalha pela cidade na velocidade de boato. “O grafitti e a pichação tem um limite tênue. Realmente, para você fazer a coisa com critério, será um grande desafio. É muito bacana a arte nova”, ponderou Tarsila do Amaral, a Tarsilinha.


O Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo é reduto do grafitti, arte mais polêmica dos tempos contemporâneos.


Isso significa que a Arte não é o Absoluto, mas uma forma de atividade que estabelece uma relação dialética com outras atividades, outros interesses, outros valores. Diante dela, a medida em que reconheço a obra como válida, posso operar minhas escolhas, eleger meus mestres. A tarefa do crítico pode ser também e especialmente esta: um convite a escolher e a discernir. Umberto Eco

Se hoje a arte contemporânea segue tão contestada quando à modernista, resta o pensamento futuro. Quanto a isso, Tarsila deposita muita confiança nas próximas gerações, apontando para a escola como o caminho ao conhecimento e à criatividade.


Tarsila do Amaral, a Tarsilinha, é sobrinha-neta da famosa pintora e responsável pelo acervo.


“A gente vai ter uma geração que passa a estudar a arte nas escolas, com a mente mais aberta, trabalhando a própria imaginação das crianças e isso vai ter consequências nas próximas gerações. Deveria ser obrigatório sim e tem que melhorar bastante a maneira que estão estudando. Eu tenho certeza que vai ter muita gente que vai trabalhar nesse universo das artes”, analisou.

A arte é necessária à vida humana e indispensável dentro de uma sociedade. Ela não só promove a mudança, como nos prepara melhor para ela. “O modernismo mudou o Brasil politicamente, uma mudança geral no país, culminou na Revolução de 32. A arte tem o grande poder de mudar o mundo, não só com consequências politicas, mas também influência na arquitetura. A manifestação artística tem uma abrangência que nem se imagina. Fora que é lindo, um prazer poder compartilhar e ver uma coisa bonita. Faz bem para a alma”, finalizou a Tarsila.

O Instituto Mpumalanga acredita no potencial transformador da arte. Além da formação de professores da rede pública na metodologia Viva com Arte, que trabalha o desenvolvimento artístico pelo movimento, é responsável pelo projeto Caravana das Artes, que permite a difusão da metodologia para educadores e crianças de diversos lugares do Brasil.

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