Cultura popular associada à educação reforça identidade do Recife

Um dos maiores movimentos populares brasileiros, o frevo ganhou em 2014 um memorial que reúne a história da tradicional dança nordestina. O Paço do Frevo mantém viva a manifestação ao promover pesquisa e disponibilizar espaço para que a dança continue seu crescimento histórico junto à população do Recife, onde o museu está instalado no centro da cidade. O espaço exerce função educativa, não somente em relação às pesquisas, mas também por apresentar uma manifestação de origem popular como parte da identidade do povo pernambucano.

“Cultura popular e educação nunca estiveram desvinculadas. A academia começa a trazer essa arte e deixar de ver como um movimento de vagabundo”, pontua Gabrielle Conte, arte-educadora e professora. “Ela sempre educou”, reforça.


Gabrielle Conte defende inclusão da cultura popular na educação tradicional. (Foto: Celia Santos)


Desvincular educação de manifestações populares é uma tendência histórica no território nacional, mas busca ser corrigida com novas correntes que pensam educação de forma mais ampla e menos cartesiana. “É preciso compreender o que é conhecimento e não colocar essa diferença entre formal e informal. Sempre existiu uma prepotência no que é pensar educação”, acrescentou Conte.

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+ Frevo tem memória em ebulição e diálogo com o contemporâneo

A dança do frevo tem muitos elementos ligados a capoeira, o que remete ao seu surgimento histórico em uma época de levantes e revoluções em Pernambuco. Na década de 30 a capoeira havia sido proibida, mas jamais deixou de ser praticada pelos seus seguidores. A associação com a dança permitiu que os capoeiristas voltassem a se manifestar. “Tinham as bandas marciais de cunho político e os bravos valentões, que nada mais eram do que capoeiristas, influenciada pela música começa a mescla com a capoeira ganhando conatação de dança, sem deixar de ser jogo, luta”, detalha a professora.

Essas referências históricas levam ao papel identitário do frevo, que não pode se perder com o tempo. “O frevo tem um papel de identidade. Leva um dialeto, agrega valores de histórico corporal, de movimento, valoriza mais o pernambucano. É a tradição dialogando com o contemporâneo”, finaliniza Gabrielle. O diálogo entre história e modernidade é muito bem representado no Paço do Frevo, que apresenta a importância do passado através de instalações modernas e organização que levam a uma verdadeira imersão no universo da dança tradiocional.

A história continua a dançar no presente

Laércio é de um tipo miúdo, com bigode escovado e ralo. A baixa estatura e o corpo esguio permitem que ele execute movimentos com leveza de bailarino. Não é balé, entretanto. A aceleração da dança, ao mesmo tempo em que a sutileza dos movimentos são preservadas, remetem ao frevo mais clássico e tradicional que se tem conhecimento no estado de Pernambuco.


Laércio é especialista no frevo tradicional, dançado no início do século XVIII. (Foto: Celia Santos)


O dançarino é do grupo Guerreiros do Passo, cuja uma das vertentes se dedica a salvaguardar a história do frevo, mantendo viva a dança que se iniciou no século passado. A sombrinha colorida, hoje elemento indispensável, é preterida ao verdadeiro guarda-chuva. Sim, aquele mais conhecido e sem graça, de diâmetro mais avantajado.

Nas mãos de Laércio, contudo, a vasta sombrinha prova que também pode ter beleza quando manuseada com tamanha agilidade e esmero. “Comecei brincando nas troças e estou até hoje”, recorda se referindo aos grupos que saem às ruas para brincar o frevo.

Durante o horário comercial, Laércio se dedica ao ofício de eletricista. Mas ao final de cada expediente vira a chave, é sua luz própria que ganha vida.

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