Frevo tem memória em ebulição e diálogo com o contemporâneo

A maioria da região Nordeste não é propensa a chuva. O que pode gerar estranhamento ao visitante mais desavisado é a quantidade de sombrinhas espalhadas por vários cantos do Recife, capital pernambucana. Longe de ser a terra da garoa, a cidade é do frevo e lá o pequeno guarda-chuva, sempre colorido, é ponto de equilíbrio para uma das maiores manifestações populares nordestinas.

O singelo guarda-chuva é passado de uma mão a outra em gestos rápidos e difíceis de acompanhar. Movimentos em consonância com a frenética música, ele cruza as pernas, que se entrelaçam sem nó. É jogado para frente e recolhido perto do peito em um vai e vem estonteante e envolvente. É sombrinha que gira, cores que se misturam e uma dança quase acrobática. São tantas facetas do corpo que hoje o frevo supera uma centena de passos catalogados, cerca de 120. Tudo isso é fruto de uma história que também é centenária e com uma importância histórica cultural enorme.

O frevo nasce oficialmente em 1907, quando pela primeira vez a palavra apareceu em um jornal. Porém, sabe-se que sua história é ainda mais antiga, uma vez que nenhuma manifestação popular é fruto de geração espontânea. Trata-se de um processo em evolução, até os dias de hoje. “Como toda manifestação cultural não tem quando nasce, é um processo. O frevo é uma derivação daquilo que ferve, mas desde a primeira vez que a palavra apareceu escrita a referência era a dança. O frevo já nasce como dança”, destaca Willians Santana, secretário executivo de gestão cultural do Recife. A etimologia remete ao ferver, que no linguajar popular mudou a conotação do verbo transformando-o em nome próprio daquela manifestação que emergia das ruas de recifenses.


Willians Santana explica que o frevo é uma manifestação muito antiga, mas que 1907 foi dado como oficial. (Foto: Celia Santos)


O crescimento do frevo acompanha a sociedade, adquirindo novas formas e vertentes. Ao andar pelo Paço do Frevo, museu dedicado ao ritmo e inaugurado em 2014 no centro de Recife, a palavra mais parece prefixo de algum novo dialeto: frevo-de-rua, frevo-de-bloco, frevo-canção. É frevo para toda e qualquer derivação.

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A riqueza histórica da dança anda em paralelo com a da própria população. É por isso que as paredes da ala cronológica do museu foram pintadas com tinta de lousa, para que os visitantes interagissem a giz, marcando também sua história na linha do tempo do frevo. É claro, que a Luiza preferiu escrever seu nome dentro de um coração, onde também lê-se: Tiago. O Pedro passou por lá, ao menos foi isso que ele escreveu. O Paço do Frevo não deixa de ser um espaço extremamente democrático. Os recados não são apagados, ao menos que contenham conteúdo ofensivo, mas a monitora não lembra de nenhum caso como este. Intriga como algumas intervenções a giz estão próximas do teto, mas continuamos nossa caminhada.


Na ala cronológica do frevo, as paredes que permitem intervenção a giz mobilizam visitantes a entrarem na história. (Foto: Celia Santos)


Assim como as paredes são liberais, o espaço como um todo busca relação próxima com a população. O Paço do Frevo tem uma ala dedicada a pesquisadores, porém não necessariamente eles precisam ter relação acadêmica. “Não é restrito a pesquisadores acadêmicos, pois se trata de um movimento popular, também não queremos que o museu seja só um destino turístico”, explica a gerente de desenvolvimento institucional Joana Pires. Aqueles cadastrados para realizar pesquisa têm acesso gratuito as instalações.

Existe uma comunidade do frevo, que reúne mestres, simpatizantes, dançarinos, músicos que estudam o movimento. Além da memória, o espaço do Paço do Frevo mantém a dança em ebulição, uma vez que têm salas de aula dedicada a várias vertentes do frevo, como frevo improvisação, o frevo de bolso ou o frevo pilates. Um estúdio de modernas instalações também é destaque, por oferecer a músicos profissionais e amadores a oportunidade de desenvolver sua arte, independente do gênero.


Instalações modernas e diálogo com o público fazem do Paço do Frevo um espaço diferenciado. (Foto: Celia Santo)


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