“Mata Atlântica só está preservada porque existe indígena”, afirma líder Guarani


Sergio Macena contestou políticos que apontam para os indígenas como se fossem eles os responsáveis pela devastação das florestas. |Foto: Celia Santos


Sergio Macena tem porte esguio e fala demorada. Quando se comunica em português escolhe as palavras e nem sempre acerta a concordância, porém é plenamente compreensível. O líder Guarani Mbya tem muito a dizer sobre sua cultura e ganhou voz na Caravana das Artes, em São Sebastião, durante a Mostra Saberes da Terra.

Com o microfone na ponta dos dedos, Macena aproveitou a fala não apenas para contar sobre sua cultura, tão presente na história do município de São Sebastião, mas também para bradar o papel protetor do meio ambiente dos indígenas e sua importante presença dentro da tão ameaçada Mata Atlântica.

“A Mata Atlântica hoje está preservada porque existe aldeia indígena dentro do município”, afirma com firmeza e é imediatamente interrompido por uma saraivada de aplausos. “Porque se não tivesse aldeia indígena hoje totalmente seria destruído. E muitas vezes nós somos discriminados, com alguns políticos que falam que índio estão destruindo a mata” completou, mais uma vez saudado pelo público.

Proteger a mata não é tarefa tão fácil nos dias de hoje, quando o cuidado com o meio ambiente requer mais atenção dos povos originários em função dos interesses de sociedade estruturada no capitalismo. “Nós temos guerreiros que vigia a aldeia e a mata hoje, então antigamente não precisava de ficar vigiando, porque a gente não tinha preocupação”, explicou.

Essa proteção nasce de um passado em que os direitos indígenas foram solapados. No entanto, não se trata de reverter os não-indígenas ao papel de rivais. Ao contrário do que o senso comum indica, os indígenas Guarani Mbya, assim como muitos outros, estão integrados à economia do município.

“Eles [os Guarani Mbya] estão vendendo bastante artesanato indígena. O turista vem para cá para comprar, sabendo que eles estão na rua da praia”, afirmou Adriana Augusto, presidente da Fundação Cultural Deodato Santana, que trabalha pela manutenção das culturas de São Sebastião. Na Caravana das Artes, os indígenas também tiveram um espaço para exposição e comercialização dos artesanatos.


Artesanatos ficaram expostos para venda. Uma das fontes desses indígenas é a comercialização de artes. | Foto: Celia Santos


Hoje, além do trabalho artístico, os indígenas Guarani Mbya se beneficiam de uma produção do palmito pupunha, produto cuja extração indevida deixou a espécie Jussara ameaçada de extinção. As aldeias indígenas também entram na rota do turismo de São Sebastião, embora a visitação seja controlada para que não haja impacto ambiental.

A aldeia reúne cerca de 900 pessoas. Tem escola municipal e estadual. Em ambas, professores indígenas dividem espaço com os educadores não-indígenas. O sistema é diferenciado e os alunos aprendem primeiro a língua materna, depois o português. “Hoje existe professores indígenas que ensina língua materna primeiro, a segunda língua vem depois quando já vai para quinta série, ai já vem a língua português”, esclareceu Sergio Macena, mostrando muita preocupação com a preservação de sua cultura.

Se a Mata representa a preservação do espaço indígena, a língua é a preservação da cultura. Manter é língua materna hoje é um dos principais desafios dos indígenas frente aos avanços da globalização e a integração com a sociedade não-indígena.

* Sergio Macena foi um dos participantes da Mostra Saberes da Terra, organizada pela Caravana das Artes durante a realização do projeto em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. A Mostra tem como objetivo promover o encontro de diversas expressões culturais que revelam a identidade do município e a riqueza dos saberes populares.


Pequenos indígenas também passaram pela ação da Caravana em São Sebastião. | Foto: Celia Santos


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