Parte I: Escola Sem Imperativos

As crianças do Ensino Fundamental e público do município de Bauru, no interior de São Paulo, têm um tom de voz diferente. Porém, nada relacionado ao sotaque interiorano, quase imperceptível entre os mais novos. Elas são donas de suas vozes e, apesar da pouca idade, já se expressam com firmeza e segurança.

O timbre agudo prova que os pequenos sequer passaram pela puberdade. O enunciar das sentenças deixa dúvida sobre a idade, entre 8 e 14 anos. São crianças, transformadas por um projeto de implantação de grêmios estudantis, mas com a mesma candura e riso fácil da infância.

“Falar sobre política é importante para saber o que está acontecendo fora da escola. A gente não vive só dentro da escola, precisa saber o que está acontecendo no país e entender tudo isso”, argumenta Maria Luiza Vital de Souza, no alto de seus 14 anos.


Ana Luiza preside o grêmio de sua escola e se sente mais motivada com participação ativo.

Ana Luiza preside o grêmio de sua escola e se sente mais motivada com participação ativo.


A ideia do projeto é que os alunos sejam atuantes na escola. “Esse é um projeto de extensão, que trabalha com a gestão democrática desde a infância”, explica Flávia da Silva Ferreira, do departamento de psicologia da Unesp, parceira na iniciativa com a Secretaria Municipal de Educação . “A gente fala tanto que formação política tem que começar na infância. São como vereadores na escola e a partir disso trabalhamos vários conceitos. As crianças se sentem mais donas da escola e pensam o que podem fazer para melhorar”.

A iniciativa atua em várias frentes e combate a hegemonia do saber, no qual o aluno é colocado como mero expectador do conhecimento enciclopédico. Colocá-las como protagonistas do próprio aprendizado ajuda muito no entendimento de um sistema democrático, consequentemente na percepção de quando ele é violado. Se o país é uma democracia, por que a escola seria diferente? Por que impor o conhecimento?

A pluralidade de ideia dos debates também promove a tolerância, tão rara entre adultos, mas muito simples para Maria Luiza e sua turma. “É importante ter várias opiniões para ir criando a nossa própria. Saber o que penso depende de entender o que os outros pensam. Tem que escutar a opinião, mesmo se ela for diferente da minha. Ver o ponto de vista da outra pessoa!”, palestrou a pequena cidadã.

Mesmo o conhecimento didático é enviesado, portanto a argumentação se torna fundamental para a formação básica. O professor e filosofo Mario Sergio Cortella lembra que a imparcialidade não é encontrada nem mesmo nos livros de história. Quando os romanos passaram a tomar território, a nomenclatura adotada foi “Expansão do Império Romano”. O capitulo seguinte do livro de Maria Luiza anunciava como “Invasões Bárbaras” o processo de retomada das terras dos romanos pelos povos originários. O ponto de vista transforma revoluções em golpe, portanto a educação não pode partir de um monólogo a ser aceito e jamais questionado, como sugere, por exemplo, o projeto de lei Escola Sem Partido.

A emenda chama de doutrinação ideológica discussões de temas pertinentes à sociedade, como o feminismo e a homofobia. “Esse projeto neste momento histórico é um retrocesso em alguns pensamentos. Aqui se aprende de forma crítica, discute o histórico do movimento estudantil, tudo tem estudo. A particularidade de Bauru é que isso começa com crianças pequenas”, opinou Flávia da Silva Ferreira.

As discussões em torno de temas polêmicos também combatem a cultura eurocêntrica e abre caminho para abordagens de saberes de origem africana ou indígena, por exemplo, tão importantes para questões de identidade.

Ao mesmo tempo em que a socie