Arte na escola: Compreensões e desafios metodológicos


Professor questiona papel da música, muitas vezes deixada de lado nas escolas, | Foto: Celia Santos/Instituto Mpumalanga


De alguma maneira a Arte sempre esteve presente na escola, mas a sua sistematização e a inclusão dos seus conteúdos na rotina escolar sempre foram incertas e nebulosas. As Artes Visuais, por uma questão natural, se adequaram melhor à estrutura física, ao tempo e espaço escolar. No entanto, as outras linguagens (Dança, Música e Teatro), por necessitarem de atenção diferenciada e, principalmente, pela falta de metodologias específicas, não se estabeleceram devidamente e acabaram por ficar, por muito tempo, fora do planejamento oficial e das práticas de sala de aula.  Os discursos, de que é necessário um espaço específico, que as turmas devem ser reduzidas ou que só é possível realizar as atividades com material adequado, determinaram a ausência dessas linguagens do cotidiano das escolas.   

Porém, na prática elas nunca se ausentaram por completo. Um ou outro professor arriscou, em algum momento, nas suas aulas, elementos dessas linguagens. A Música, por exemplo, sempre foi utilizada ou subutilizada na rotina da escola, muitas vezes como recreação, nas datas festivas, ou como ferramenta para ensinar conteúdos de outras áreas, ou seja, como uma estratégia para o aprendizado dos alunos, ou simplesmente para momentos de diversão e lazer.

Nos últimos anos, mudanças nas leis da educação incluíram essas linguagens artísticas novamente na grade curricular, na busca de promover uma educação integral e mais sensível. Vale pontuar que o termo “Educação Integral” carrega certa redundância, pois todo processo educativo deve em si trabalhar todas as dimensões humanas. Por isso, essencialmente, já deveria ser integral em si mesmo. Mas, a fim de contrapor uma prática cartesiana, demasiadamente intelectiva, que se estabeleceu historicamente dentro do cotidiano escolar, e que desconsidera as outras dimensões humanas (o corpo, a afetividade e o ser sensível), faz-se necessário o termo, que não deve ser confundido com educação de tempo integral, que é o aumento da carga horária, e que também está dentro das metas da educação brasileira, já que um único turno se mostrou insuficiente para atender às novas demandas da Educação Integral.

A Arte tem sido bastante requisitada para compor esses novos horários e colaborar com o esperado desenvolvimento integral dos alunos. Entretanto, precisamos entender que não basta implantar Oficinas de Arte nas escolas, se não houver um cuidado com a forma e a metodologia que será aplicada. Quais os conteúdos válidos, o repertório, as expectativas? Tudo isso precisa ser refletido e conduzido de forma sistemática.

Precisamos rever também os valores educacionais atribuídos pela sociedade à Arte, e o senso comum que muitas vezes mistifica e potencializa excessivamente seus benefícios, apresentando-a como algo mágico, que resolveria as questões sociais, cognitivas e relacionais ou psíquicas dos envolvidos em suas práticas. Por outro lado, numa visão mais cética, temos uma arte questionável, esvaziada e alienada pela indústria cultural, que reduz suas reais possibilidades transformadoras dentro do contexto educacional, o que torna cada vez mais nebuloso o seu entendimento e seu  papel potencializador.


A arte não busca talentos, mas revela o potencial de despertar todos para uma vida melhor. | Foto: Célia Santos/ Instituto Mpumalanga


Não há dúvida da importância da Arte na formação do ser humano, mas não podemos deixar de chamar atenção sobre a forma como muitas vezes ela é abordada dentro da sala de aula.  Quando não estão sob a prática “laissez faire”, ou do deixar fazer, que acaba virando um “vale qualquer coisa”, temos, o foco excessivo na formação de artistas, com predileções e exigências de conteúdos desnecessários e teóricos, com seleção de alunos e a exclusão dos menos “talentosos”.

É preciso não perder de vista que a arte-educação se  insere num campo de estudo entre a Arte e a própria Educação. E é justamente aí que incidem os desafios dos profissionais de arte que atuam nas escolas, pois sabemos que na maioria das vezes, na sua formação, há pouca ou nenhuma preparação metodológica para o ensino de arte dentro do espaço escolar. Muitos se sentem perdidos ao se depararem na sala de aula com muitos alunos e suas particularidades, interesses e níveis tão diferenciados.  Então, acabam trabalhando com uma pequena minoria interessada, quando não o fazem  apenas com os ditos talentosos.  Já outros enfrentam os desafios com aulas teóricas, trabalhos escritos e um imenso distanciamento prático do fazer artístico.

Por outro lado, os professores generalistas, os de outras áreas de ensino e os pedagogos não se sentem competentes para utilizar a Arte de forma mais consistente dentro das suas áreas de atuação. No final, a escola e os alunos perdem a oportunidade de ter a Arte como aliada no processo de ensino-aprendizagem, no desenvolvimento integral e na construção de uma escola mais viva e humana.

Por isso, a inclusão da Arte na escola deve ser geradora de oportunidades para que os dois atores fundamentais do processo educacional – Educando e Educador – possam trocar experiências e aprender juntos. É preciso naturalizar a Arte na rotina diária das instituições de ensino, ultrapassar as barreiras das salas e promover a qualificação dos profissionais de educação para o uso e a experimentação artística, preparando-os, não apenas para os conteúdos de suas especialidades, mas, sobretudo, para os desafios da educação do futuro, numa perspectiva transdisciplinar, já que os novos paradigmas da educação apresenta alunos não mais tão dependente do professor para acessar conteúdos, aprender e memorizar palavras e datas. Precisamos de uma educação que tenha como objetivo primordial o Ser Humano no inicio, meio e fim do processo, para que as especificidades de cada área do saber não percam o que seria essencial na educação: a contribuição para uma  existência mais plena, criativa   e sensível consigo mesmo, com o outro e com Planeta.

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Ossimar Franco é professor de música.

Graduado pela UFBA – Universidade Federal do Estado da Bahia

Professor do Instituto Mpumalanga

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