Chão de Estrelas tem cortejo no tamborilar do Maracatu

De dourado, vermelho e muitos brilhos, vem chegando toda a corte. O rei vem alegre, de sorriso estampado por debaixo da larga coroa, tem todos seus cortesões por perto, também repletos de alegorias. Vez ou outra, a coroa cai sobre os olhos. Disfarçadamente o rei a ajeita com o seu cajado.

Aquele reinado é de Diógenes. O nome tem origem grega e, segundo a tradição, pertenceu a um homem que fez da pobreza extrema sua virtude. Ele abominava os valores da sociedade da qual fazia parte, pregando a liberdade e o autodomínio como essenciais à felicidade. Antecessor de Sócrates, ele já afirmava ser cidadão do mundo e não do Estado. Tudo isso são significados de um nome, que ainda não chegaram ao conhecimento de Diógenes, do Recife. O pequeno pernambucano conduz a corte que não é feita de nobres e fidalgos, mas de meninos negros e pobres. Nenhum castelo entra na trama que se passa no Chão de Estrelas, comunidade da periferia recifense. No reinado de Diógenes ninguém é dono de terras, são todos donos da felicidade. E é por isso que vai cheio de sorrisos aquele cortejo.


Quem reina no Chão de Estrelas são as crianças, que mantém a tradição do Maracatu pelas ruas da periferia do Recife (Foto: Célia Santos)


Em caminhada por ruas pedregosas, o rei é acompanhado da rainha e de seu vassalo. Está cercado pela Dama do Passo, que segura uma Calunga, boneca que representa os ancestrais daquela cultura, de Princesas, Baianas e Africanas. Todos eles obedecem aos ritmos dos tambores, porque aquele cortejo é nada mais que Maracatu.

A tradição nascida em Pernambuco representa cerimônias de coroação dos reis e rainhas da nação negra, em uma mistura de sincretismo religioso cristão com crenças africanas. A dança é caracterizada pelo som de alfaias, espécies de tambores, acompanhadas por caixas, ganzás e um agogô. “É uma manifestação da cultura afro-brasileira. Eram negros querendo imitar os portugueses”, explica Vilma Carijós, co-fundadora do Daruê Malungo, um ponto de cultura em meio a periferia, onde valores nascem em terra seca.

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O Maracatu Daruê Malungo, todavia, é diferenciado. No centro daquela cultura estão crianças, empoderadas em cargos monárquicos, porém mais ainda dentro de sua própria identidade. Muitos são descendentes de escravos e resgatam suas origens ancestrais por meio da música e da dança. O próprio nome Malungo também apresenta etimologia significativa, pois designa companheiro, na gíria falado pelos negros brasileiros nos séculos de escravidão.


No batuque ou na dança, Maracatu Nação Estrelar tem versão integrada somente por crianças e jovens (Foto: Celia Santos)


Enquanto os tambores ressoam, começa o movimento do Maracatu. Os pequenos caminham altivos para a direita e com um gingado de corpo mudam rapidamente de direção para realizar os mesmos passos à esquerda. Seguem assim sincronizados, com as meninas de saias rodadas intercalando rodopios entre o tamborilar das alfaias. O rei e a rainha estão sempre no centro da formação, pois devem estar protegidos pelos outros integrantes da corte. O movimento entre esquerda e direita não é mera coincidência. Ele imita o balançar dos navios negreiros, origem que a cultura remonta.

“Quando se nasce em uma favela, as crianças se comunicam de forma criativa, é uma forma de unificar pela dança, uma identidade cultural”. A frase é do Mestre Meia-Noite, nome pelo qual Gilson José Santana é conhecido desde que começou a jogar capoeira. Ele também é percussor do espaço e responsável por inserir a cultura dentro da comunidade, pois sempre aspirou pela arte e não podia deixá-la afastada daqueles meninos. “Surge da necessidade de expressar. Eu tenho uma vida artística, fiz parte de vários grupos de balé, dança, dança contemporânea, mas o grande forte foi a capoeira e vivenciar suas ramificações”, completa.


Capoeira e outras manifestações afro-brasileiras ganharam espaço na periferia do Recife depois da fundação do Ponto de Cultura Daruê Malungo. (Foto: Celia Santos)



Mestre Meia Noite foi um dos percussores do espaço. Ele também teve influência no movimento Manguebeat, surgido nos anos 90, com uma mistura de ritmos regionais. (Foto: Celia Santos)


O espaço de cultura foi um investimento de Meia-Noite e de Vilma, que construíram de um galpão, porém o Maracatu Mirim é fruto de uma reivindicação das próprias crianças, aspirantes a fazer parte da dança dos adultos. “As crianças também queriam sair para a rua e se apresentar”, conta Vilma, que hoje organiza e ensina meninos de três a 12 anos, retomando uma tradição e a mantendo viva.

Não é apenas o Maracatu que reforça a identidade no Daruê Malungo.  O ponto de cultura colabora até na alfabetização das crianças. Lá o Beabá, tem A de atabaque, tem B de berimbau, são elementos das raízes que melhor completam o aprendizado das crianças. Afinal, B de bota, para os meninos de Recife que andam descalços, nunca fez sentido.

“Para se viver bem, tem que ter o conhecimento do seu próprio corpo, seu corpo é o seu tempo, – e a dança ajuda nisso – e da sua origem, por meio da arte e da cultura”, afirma Mestre Meia-Noite. “Vem de um povo sofredor e que luta contra uma sociedade racista, machista. A cultura popular dentro da baixa renda entra nessa luta. A luta está dentro das crianças e essa cultura mexe com a gente”, reforça Vilma. O Daruê Malungo existe desde 1988, exatos 100 anos após a proclamação da Lei Áurea.

O esforço para trazer cultura, que acabou se expandindo em um movimento de educação, faz André Luiz da Silva Santos produzir poesia oral, sem se dar conta disso. “Sinto orgulho. É quando meu coração bate mais forte. Mainha me colocou no maracatu porque eu gostava muito. A senhora – em referência a Vilma – me ensinou esse batuque”, versa. André reveza com Diógenes a figura de rei. Quando não está com a coroa, veste-se de vassalo.


André é um dos meninos que não esconde a gratidão pela presença do Maracatu em sua comunidade. (Foto: Célia Santos


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