Canto, rito e pesca – Uma homenagem aos pescadores, os intérpretes do mar


Águas são inspiração de muitos compositores brasileiros. A jangada se eternizou com Dorival Caymme. | Foto: Celia Santos/Instituto Mpumalanga.


O canto sempre acompanhou a humanidade. Desde a antiguidade, canta-se para saudar a chegada da chuva ou para invocar os espíritos da terra. Diferentes culturas e crenças de várias partes do mundo “cantam” para celebrar a vida, intensificar a energia, alterar a consciência, para saudar o alimento ou incorporar poderes sagrados. Canta-se, ainda, para comemorar nascimentos ou, como no caso das incelências, presentes em alguns lugares no interior do Brasil, canta-se para a morte.

A canção aliviando o peso do trabalho tem também seu lugar. Desde as fiandeiras, os capinadores da roça, aos Vissungos entoados pelos negros escravizados em Minas Gerais. A exemplo, vale a lembrança do álbum “Canto dos Escravos”, lançado no Brasil em 1982, reunindo tanto cantos religiosos, quanto cantos que acompanham as fases do trabalho. Eles eram cantados nos garimpos de Minas Gerais, mais precisamente em São João da Chapada Diamantina. Clementina de Jesus, uma das intérpretes do álbum, foi uma das principais cantoras brasileiras responsável por trazer, através da memória e oralidade, esses cantos de herança dos africanos de Benguela.

Pensando no canto como esse lugar que liga e conecta mundos e sensações diversas e, mais especificamente falando agora de cantos de trabalho, desaguamos entre os pescadores. Esses seres que vivem no mar, rodeados pelas águas, pelo céu e pelas criaturas marinhas. Nesse deserto que envolve a escuridão, a incerteza, o mistério, lá estão eles, os corajosos desbravadores do desconhecido: os intérpretes das profundezas do oceano.


Música também acompanha e fortalece trabalho rural. | Foto: Celia Santos/Instituto Mpumalanga.


“Cerca o peixe, bate o remo, puxa a corda, colhe a rede” já cantava Caymmi. Nesse movimento, o pescador vive a solidão de dias e noites entre céu e mar. Sua atividade garante hoje 16% da proteína consumida nas mesas brasileiras, e haja braço, coragem e paciência. Ser pescador é quase uma herança. Para alguns, uma alternativa de trabalho em seus vilarejos, para outros, um dom divino. É mais que saber pescar. Tem que ter habilidade de conversar com as águas, decifrar os seus segredos. Olhar o mar, compreender o oceano e não temer.

Dorival Caymmi, compositor baiano apaixonado pela Bahia e pelo mar, cantou o pescador, através de histórias como a tragédia de Pedro que todo dia saía à tarde e só voltava na hora do sol raiar, até o dia em que não voltou e seu corpo foi encontrado roído de peixe, endoidecendo sua amada Rosinha. E cantou os amores do pescador, um bem na terra, um bem no mar. Saudou os presente de Chiquinha e de Iáiá, recompensas da boa pesca. Entoou a clemência do pai que pede proteção ao seu filho, pois também já foi do mar e sabe bem dos perigos das águas salgadas. E bem lembrou dos presentes para yemanjá, celebrada no dia 2 de fevereiro com festas no mar.

E a jangada se mistura com a noite, a tempestade, o barco, a solidão, o peixe, a pesca, a morte, o mar.E o canto vem para aliviar a solidão, para superar o medo, para ritmar a batida do remo, celebrar a fartura da rede repleta de peixes. E vem também das sereias, do vento, das águas profundas.

Para Caymmi, até a morte no mar é doce. Doce como o canto da sereia. Doce como o canto, que transforma sopro em som, junta voz e coração, razão e emoção. Vira voz, vira canção.

Para inspirar: Canções praieiras:

Livros: O Negro e o garimpo em Minas Gerais – Aires da Mata Machado filho Dorival Caymmi – O Mar e o Tempo – Stella Caymmi

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Graduada em Educação Artística pela Universidade de Brasília, com pós graduação em Gestão Cultural pelo Senac. É cantora, compositora e possui três álbuns autorais – “O Verde do Mar”, “Pura” e “Deusa do rio Níger” , lançados nacionalmente e com referências na música afro-brasileira, africana e afro-americana.

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