O baque é solto ou virado? Conheça os ritmos do maracatu de Pernambuco


“O maracatu representa uma das maiores riquezas que a gente tem de cultura popular em Pernambuco”, Gilmar de Santana Batista – mestre do maracatu Estrela Brilhante de Igarassu.


O ressoar dos tambores. O Maracatu chegou, é carnaval! Meninos e meninas agarravam nas saias de chita de suas mães com medo de serem levados por aquelas figuras extravagantes e coloridas dos cortejos de maracatus. Já os pais queriam mesmo é participar da grande brincadeira, tamanha a importância dessa manifestação cultural deu o título ao estado de Pernambuco de capital do Maracatu.

Do litoral para a zona da mata, a diversidade de grupos de Maracatu é notória, principalmente, pela diferenciação do seu baque ou do seu ritmo. Na região metropolitana de Recife, o “Baque Virado” surgiu durante o período escravocrata, no século XVII e XVIII, para dar ritmo ao canto e a dança das loas, que entoam a religião de matriz africana. “O Maracatu do baque virado representa os reis de congo, da Nação negra, é o candomblé fora do terreiro”, explica o mestre de cultura Gilmar de Santana Batista”.


O grupo Estrela Brilhante de Igarassu, fundado em 1824, é a agremiação mais antiga de maracatu de Baque Virado de Pernambuco.


Gilmar é mestre do Maracatu Estrela Brilhante, o mais antigo maracatu de baque virado de Pernambuco. “Nosso grupo nasceu na Vila Velha, em Igarassu, sou a quarta geração de mestre da minha família, e luto para não deixar a tradição acabar”.


O grupo recebeu o prêmio de Ordem ao Mérito Cultural, do Governo Federal, por sua contribuição para o desenvolvimento da identidade cultural brasileira.


A força da toada do mestre se inicia e se encerra pelo som de um apito, os integrantes e os batuqueiros respondem ou repetem o comando do mestre. A percussão do baque virado é forte e acelerada, baseada em tambores grandes, chamadas de alfaias. Um grupo de maracatu de baque virado pode chegar a mais de cem pessoas. Eles interpretam a cultura dos negros trazidos da África para o Brasil e os cortejos da coroação dos Reis de Congo.

Foram muitos cortejos e festas do folguedo. No final do século XIX, o êxodo da população do litoral de Pernambuco para a Zona da Mata, influenciada pela fartura de trabalho na cultura da cana-de-açúcar, originou um novo maracatu, o Baque Solto. As festas aconteciam nos engenhos, quando os trabalhadores rurais se reuniam nos períodos de folga para festejar um final de semana após o árduo trabalho no canavial.


O Engenho do Cumbe, em Nazaré da Mata – PE, é a sede do maracatu rural Cambinda Brasileira desde 1918. O grupo é considerado o mais antigo maracatu de Baque Solto do estado.


Para o pesquisador de cultura brasileira Olimpio Bonald, o maracatu rural ou de baque solto é um produto do sincretismo afro-índio gerado pela criatividade do povo rural da Zona da Mata Norte, ao ser incorporado no caldeirão do grande Recife.


“Os desafios do caboclo de lança são carregar o surrão, a roupa nas costas com um calor de quarenta graus e levar o sorriso no rosto”, Ivanildo José caboclo de lança do maracatu Cambinda Brasileira.


O destaque desse folguedo é o caboclo de lança, personagem que representa a força do trabalhador. Suas madeixas douradas lembram o canavial, as lanças de mais de dois metros de comprimento são adereços coreográficos. O cravo na boca, a gola colorida e bordada carregam significados e segredos guardados a sete chaves pelos integrantes dos grupos. “O maracatu rural veio do engenho. Só quem está dentro de um grupo conhece a magia desse ritmo”, comenta Anderson Miguel, mestre do Maracatu Rural Cambinda Brasileira.

A Cambinda Brasileira nasceu em 1918 e até hoje mantém sua sede dentro de um engenho, em Nazaré da Mata. Os caboclos de lança carregam um surrão com sinos que marcam o ritmo do baque solto, eles são acompanhados com percussão, cuíca, ganzás e instrumentos de sopro como o trombone.


Fotos: Célia Santos

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+ Cambinda Brasileira: a força que vem do canavial

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