O livreiro e o poeta

Livraria preserva cantinho de Leminski, que vira lenda do próprio poema

Se Minas tem Guimarães Rosa, Alagoas pertence a Graciliano e Machado é carioca, Curitiba orgulhosamente é versada pela poesia de Paulo Leminski. O autor nasceu na capital paranaense e compôs muitos poemas sob a influência dos dias cinzentos e gelados característicos da região. Uma livraria, em especial, guarda um dos cantinhos preferidos do poeta, onde horas se perdiam entre azulejos azuis.

O tempo fica cada vez mais lento e eu lendo lendo lendo vou acabar virando lenda

Era na cozinha que Paulo Leminski encontrava aconchego para a leitura diária de livros e jornais em diferentes épocas em que morou em Curitiba. A preferência era pelos livros de linguística e dicionários, segundo Aramis Chain, dono do estabelecimento que leva o seu sobrenome. “As pessoas que visitam hoje querem saber qual estante ele mais gostava, onde ele ficava”, conta com forte sotaque sulista. Leminski gostava de brincar com palavras e provocar o leitor com metalinguagens, anacolutos, antíteses e prosopopeias.

O cantinho de Leminski está disposto em um anacoluto (figura de sintaxe que quebra ou interrompe uma frase ficando termos desligados do resto do período) arquitetônico. Ao caminhar pelas estantes, a cozinha aparece em profundidade, totalmente sem concordância com o restante do ambiente. Uma cozinha anacoluta que mais parece obra de poeta.


Cozinha da livraria era cantinho preferido de Leminski e ainda preserva seu charme. (Foto: Celia Santos)


O espaço muito se assemelha a uma cozinha de avó. Mesa central redonda com toalha florida de pontas bordadas, fogão sem acendimento automático e café de coador, mais para fraco do que para forte. Sentado em um banquinho, com um quadro de natureza morta ao fundo, o poeta degustava os livros com café e buscava inspiração para receitar palavras.

Antes que a tarde amanheça e a noite vire dia põe poesia no café e café na poesia

Na parede que contorna a bancada da cozinha, uma série de jornais amarelados está pendurada com manchetes de cunho político e ético. Nada tem de Lemisnki, nada de poesia. São chamadas soltas que denotam a posição politica do livreiro. Ele iniciou a ocupação vertical muito depois da morte do poeta, quando seu candidato não obteve sucesso nas eleições presidenciais do início do novo milênio. É provável que o escritor já não encontrasse tanta inspiração se voltasse àquela cozinha nos dias de hoje. Chain selecionou notícias de seus algozes políticos e gosta de parar de fronte ao amontoado de jornais envelhecidos para discursar seus ideais.


O livreiro e sua extensa coleção de jornais verticais. (Foto: Celia Santos)


Se em quesitos idealistas o livreiro curitibano e o poeta pouco se assemelham, a paixão pela leitura é compartilhada. Chain considera ler como uma necessidade básica do ser humano. É algo que o completa como necessidade fisiológica. “Não vou dormir sem a leitura de um jornal. Às vezes eu entro a madrugada toda lendo e estou inteiro no dia seguinte”, explica o paranaense, assinante de quatro títulos de jornais, entre nacionais e editoriais estrangeiros.

Sobre as obras de seu principal cliente, Chain mantém o tom respeitoso, embora revele não o ter entre os prediletos. Fato é que os dois conservam mais diferenças do que semelhanças. Aramis Chain é homem extremamente rigoroso, com fortes princípios tradicionalistas e visão conservadora. Antes dos anos 70, Leminski já rompia com os valores tradicionais, em busca de uma alternativa de vida mais ligada à natureza e a liberdade com o fortalecimento de um movimento hippie.

Enquanto, aos 26 anos, Chain terminava o curso de história na Universidade Federal do Paraná, cumpria serviço militar e dava inicio ao empreendimento da sua vida: a livraria, Leminski se enveredava pelas artes, movido pela Música Popular Brasileira. O livro, no entanto, colocaria os dois personagens a dividirem o mesmo cenário.

Salve-se quem quiser Perca-se quem puder


Aramis Chain vestia um terno azul por cima de pulôver em consonância com a elegância dos gestos. Caminhou até uma das sessões e sentou entre próteses fixas, parasitologia e infectologia em uma mesinha reservada a acadêmicos. Leminski foi um poeta de versos curtos, capaz de fazer poema de quatro palavras. O livreiro é adepto das longas prosas, ou discursos, pois nem sempre deixa brecha para interrupções opinativas.


Chain não tem Leminski entre os autores preferidos, mas fala com respeito do poeta curitibano. (Foto: Celia Santos)


Dentro os assuntos preferidos, fala da exuberância de sua terra com tamanho patriotismo que causaria inveja em Policarpo Quaresma – um de seus personagens favoritos do romance pré-modernista de Lima Barreto. Pula para um tom de indignação ao analisar a sociedade atual. “Antigamente, lia-se muito. Essa coisa que se lê pela internet não é verdade. É uma preguiça mental. Ler é um conhecimento que tem que praticar”, resenha.

Não se faz mais tempo como antigamente

Voltando ao autor, depois de se perder na longa prosa de análises sociais, Chain conclui: “Foi de fato um companheiro do livro e da vida boêmia”. O segundo interesse de Paulo Leminski está longe causar admiração ao livreiro. Homem de educação militar e disciplina inviolável, gosta de ser o primeiro a chegar e o último a sair, abomina o álcool em sua vida e não esconde o julgamento a quem faz uso dele. “Não permito que meus funcionários bebam. Se vejo um deles no bar, demito”, afirmou sem justa causa.

Moinho de versos movido ao vento em noites de boemia vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia

Leminski deixou mais que um legado literário, deixou respostas de interpretação aberta, livre como ele queria a vida. O artista das palavras morreu em consequência de um agravamento de uma cirrose hepática. De passagem, foi eterno, não perdeu a viagem.

A vida é uma viagem pena eu estar Só de passagem. 

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