Bandas filarmônicas resistem à modernidade e mantêm tradição viva

As bandas filarmônicas sempre fizeram parte da cultura dos municípios brasileiros. Hoje, no entanto, são símbolos de resistência ou já se encontram perdidas nos registros históricos. A perda cultural com o encerramento de uma banda filarmônica é imensurável, por isso muitas ainda resistem à modernidade e fazem os acordes clássicos ressoarem nos tempos atuais.

“As Filarmônicas, assim como as fanfarras, representam o grau de influência que a arte, no caso a música, exerce sobre a comunidade. E o fato de ela estar desaparecendo vem como reflexo da desvalorização da cultura local, com a ausência das atividades regulares de arte nas escolas, tratada meramente como atividade interdisciplinar”, analisa Kitty Canário, professora do Instituto Mpumalanga.

Tradicionalmente, as bandas filarmônicas são formadas juntamente com a fundação dos municípios, portanto tornam-se símbolo histórico do local. “Desde criança eu acompanho a filarmônica. Meu pai é músico e eu cheguei através da escolinha da filarmônica. Foi uma coisa natural. Eu sempre tive vontade”, conta José Carlos Leite de Sá, que aos 39 anos é responsável por um dos trompetes da Philarmônica 21 de Setembro, da cidade de Petrolina, em Pernambuco. O depoimento dele é similar ao de muitos jovens que descobrem o prazer pela música dentro das bandas municipais.


Philarmônica 21 de Setembro representa a cidade de Petrolina e resiste a passagem do tempo. (Foto: Celia Santos)


A banda filarmônica de Petrolina foi inaugurada em 1910, 40 anos após o registro da cidade pernambucana. Hoje, assim como a cidade, o conjunto de músicos comemora ter ultrapassado os cem anos de história. “A música chama você. Hoje com 106 anos temos uma filarmônica revigorada”, vibra Joelson Batista da Silva, coordenador da Philarmônica 21 de Setembro.

Apesar de resistir aos momentos mais conturbados, manter a banda em vigor é um desafio diário. “Hoje ela se acha muito bem graças às pessoas que conduzem o trabalho agora, mas passamos por momentos terríveis”, lembra Francisco Dias, 74 anos dos quais 36 esteve junto com banda de Petrolina. A Philarmônica 21 de Setembro leva esse nome justamente em referência ao número de instrumentistas que compunham o grupo, porém, em épocas menos valorizadas o grupo chegou a tocar com 12 integrantes. “Às vezes comento com meus colegas que não sei como ela conseguiu se sustentar”.


Francisco Chagas, Tico, tem começou a tocar em bandas de carnaval e se descobriu na filarmônica. (Foto: Celia Santos)


A banda filarmônica de Petrolina abre processo de seleção todos os anos, no qual até aqueles que já estão no grupo têm que passar. Com isso há um processo de renovação constante e uma difusão das virtudes aliadas à música. Aqueles que não renovam a permanência, também não costumam abandonar a música, mas sim vão buscar outras formas de continuar no meio artístico, levando os conhecimentos aprendidos. “Da filarmônica surgem outros grupos. O aluno leva esse conhecimento e desperta outros núcleos”, afirma o coordenador.

O grupo conta com jovens, adultos e alguns senhores, que perdem as contas de quando começaram na 21 de Setembro. A banda ganha tamanha importância na vida dos instrumentistas que o gosto pela música atravessa gerações.

“Eu ensino música para os meus filhos. Não é só arte, ela ensina a ser um cidadão melhor”, comentou o trompetista José Carlos. “O sonho de muita gente é ter um filho tocando na filarmônica”, acrescentou o coordenador Joelson.

Mais que enriquecer os eventos de um município, tais bandas são escolas de música, que trazem um universo de saberes para diversas gerações, despertam o interesse pelos instrumentos musicais e atuam com importante viés educacional.

A função educacional da filarmônica fica clara entre os depoimentos dos alunos e os ensaios. “É a forma mais prazerosa de se educar, além da situação cognitiva, em que desperta habilidades, a música transporta para outro lugar”, avalia Joelson Batista.


Bandas Filarmônicas são importantes escolas de música, que abrem caminho para estudantes dos municípios. (Foto: Celia Santos)


“A banda filarmônica tem uma importância educacional muito grande. Hoje um terço dos participantes já tem o superior completo e os outros estão cursando”, completa. Alguns músicos do grupo são concursados, mas a grande maioria representa bolsistas, que estudam música. “É uma atividade que desperta muita concentração, mas também tem todo o prazer de tocar”, pondera Batista.

O grupo se apresenta em média 60 vezes ao ano em Petrolina. Além dos concertos, a cidade também inaugurou um projeto de música ao ar livre, no qual a Philarmônica leva os instrumentos clássicos para mais perto dos moradores. O encontro semanal é na orla do Rio São Francisco, que assume a função de cenário ao entardecer, sempre um espetáculo a parte.

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