Sebastião Salomão tece história dos caiçaras para nova geração


O saber empírico dos caiçaras sobrevive entra a nova geração graças a valorização de mestres como Seu Sebastião. |Foto: Celia Santos


Em silêncio e concentrado no trabalho manual, Sebastião Salomão tecia uma rede. Uma das extremidades envolvia uma haste presa ao chão, a outra tinha o cuidado das mãos marcadas do caiçara de 85 anos e ia aumentando de tamanho à medida que Salomão dava nozinhos tão rápidos que não decifrávamos o movimento. Naquela tarde de junho, ele era um dos convidados da Mostra Saberes da Terra, da Caravana das Artes, e poucas vezes levantava o olhar de sua rede.

Aquela rede carrega tanta história quanto o senhor que a confecciona, pois tece a história dos caiçaras de São Sebastião. Salomão carrega não somente o nome da cidade, mas a cultura do litoral norte, passada pelas gerações e cuja a simplicidade é a principal sabedoria.

“A gente constrói rede de pesca, cozinha o peixe e usa a canoa”, comenta Sebastião, que também aprendeu a arte de talhar madeira para produzir canoas utilizadas na pesca. Hoje ele se dedica mais ao artesanato, porém com o mesmo vigor de outrora. “A cultura pra mim representa tudo. Nessa idade que eu estou, eu tenho alegria de sair, de andar, com 85 anos de idade eu não tenho preguiça”, afirmou orgulhoso.

Mesmo que Sebastião Salomão esteja com algum problema ou pese as dores pela idade, não saberemos. Para a tristeza, a cultura caiçara também reserva seus remédios infalíveis. “Quando ele tá bem triste, bem triste, ele vai lá na praia, deita na popa da canoa e tira uma cochila. Dali quando ele volta, volta com outras esperanças”, revelou.

Com outras esperanças, Salomão tece sua rede para manter viva a cultura que aprendeu com os pais. Referência do saber empírico, ele é pai de cinco, avô de oito e professor de todos. Dá aulas de cultura caiçara nas escolas do ensino público e não deixa que seu conhecimento se perca na geração em que rede é internet.


Sebastião Salomão tem sonoridade no nome, onde também carrega o nome de sua cidade. | Foto: Celia Santos


Na aula do professor Salomão não existem carteiras ou ordem cartesiana. Ele senta ali, no meio da sala, e é cercado pelos pequenos atraídos pelo seu ar fraternal. Coisa de avô-professor. “Tenho muitas histórias antigas de coisas fantásticas que aparecia”, conta misterioso.

Quando deixa a sala de aula, o olhar brilha como se fosse ele o aluno a descobrir novas aventuras nas histórias do mestre. “Eu me alegro tanto, que as vezes eu passo até do limite, porque eu trabalho com crianças pequenas, meninas pequenas, meninos pequenos, então eu fico muito eufórico”, Sebastião tenta traduzir o sentimento de júbilo.

A escola revela tantas alegrias como no tempo de menino. Sebastião Salomão lembra bem. “Quando começou eu tinha 7 anos de idade, eu me lembro muito bem. O meu pai disse assim ‘amanhã você vai para a escola’”, rememorou. “A nossa escola era um salão de uma casa de pau-a-pique, as professoras vinham dar aula lá. A nossa roupa que a gente vestia, era feita de saco de farinha de trigo, que as nossas mães costuravam”, completou.

Desde pequeno, o caiçara aprende a arte de viver com simplicidade. Sebastião Salomão foi aluno exemplar.

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